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Mostrando postagens de Junho, 2016

Entre livros e álbuns de retratos

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Por Olívia de Cássia

Entre meus livros e álbuns de retratos antigos, além dos arquivos de fotos digitais, vou pensando na vida já nas primeiras horas da manhã. Olho-me no espelho e as mudanças não são nada promissoras. Marcas do tempo, do envelhecimento e da idade.

Sabe Diário, abro o computador e o Facebook me mostra lembranças de tempos atrás. De fotos que eu tirava já na juventude, de amigos queridos, compartilhamentos de mensagens e de situações e notícias que não saíram de evidência, como as notícias políticas do nosso país.

Lembro Cazuza que dizia: "São notícias velhas, de ontem", quando eram críticas negativas que se referiam ao Barão Vermelho. Na juventude a gente não se importa com a opinião alheia e quase sempre dá as costas aos falatórios.

Tio Antônio Paes de Siqueira, quando tinha saúde, ficava no bar da sinuca, na Avenida Monsenhor Clóvis e lá ouvia o falatório ao meu respeito, sobre 'possíveis envolvimentos' e lá ia ele contar para minha mãe, que não f…

Nunca deixe de sonhar

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Por Olívia de Cássia

Peço a Deus em pensamentos que me dê fé e forças, qualidade de vida e retardamento dos efeitos da ataxia. Sou muito cética  diante da vida e já não acredito em ilusões. Hoje em dia perdi um pouco a capacidade de sonhar aqueles sonhos que sonhava na juventude.

Não sou muito de rezar como meu pai fazia sempre e depois também a minha mãe, mas tem dias que parece ser mais difícil a labuta. De repente a gente se vê de pés e mãos atadas diante de uma situação mais prática. "Sem lenço de sem documento", como disse Caetano.

A Doença de Machado Joseph é uma ataxia hereditária dominante e degenerativa, identificada há apenas 18 anos, transmitida em 50% dos casos dos portadores, e que conduz o paciente por uma crescente incapacidade motora, sem alterar o intelecto, culminando com sua morte. Tento não pensar que esse dia está chegando mais rápido.

A característica genética de cada um faz com que os tratamentos sejam praticamente individualizados. Segundo os especia…

E se fosse isso ou aquilo?

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Por Olívia de Cássia

Meu texto de hoje propõe mais uma reflexão: vivemos a vida em corda bamba, às vezes constantemente,  tendo que escolher uma das alternativas que se nos apresentam ou o que é possível viver e fazer. Ou isso ou aquilo e por que não aquilo outro?

O tempo passa muito rápido em nossa vida, sem que a gente perceba e como diz o poeta, quando a gente vê, já é noite'. Segundo os filósofos a gente não deve deixar o tempo passar e perder o que poeria ganhar se não fosse pelo medo de tentar. Eu confesso que sempre fui muito medrosa e por medo deixei de viver algumas coisas.

Augusto Branco disse em um de seus textos que quando estamos muito tristes,  é como se estivéssemos atravessando um desfiladeiro em uma corda bamba. "O que tem embaixo é um abismo, e o que está acima é o céu", diz ele.

Para Augusto Branco, se você olhar pra baixo, você verá o abismo. "O abismo atrai o olhar, mas o abismo é morte certa, e ao olhar para ele você pode entontecer e cair. Po…

Um dia de interrogações

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Por Olívia de Cássia

Sabe Diário, hoje o dia foi de introspecção; interrogações; leitura, cansaço, sono, de lembranças, - algumas cheias de saudades -. O que me preocupa, Diário, é que eu não quero ficar pensando no que virá, na situação que me espera daqui para frente, mas é impossível não pensar e não ficar preocupada.

As lembranças de papai, do sofrimento pelo qual ele passou e de meu irmão Petrônio são muito presentes em mim, em cada pequeno gesto meu. E quando me indagam quando é que eu comecei a sentir os sintomas da ataxia, eu nem sei mais dizer, faz tanto tempo!

Mas a piora mesmo aconteceu de uns anos para cá, embora que moderadamente mais atrás, e mais rapidamente do ano passado para cá. Percebi que não consigo mais subir numa cadeira para pegar algo na estante de livros; isso aconteceu este ano.

Até dezembro do ano passado,  mesmo com sacrifícios, eu ainda conseguia lavar o piso da casa, mesmo com medo de escorregar e cair. Este ano fui percebendo que as limitações aumentar…

Conversando com meu Diário

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Por Olívia de Cássia

Querido Diário, volta e meia recorro a ti, para conversar um pouco, já que minhas opções hoje em dia não são muitas, devido à minha atual reclusão, por força das circunstâncias e limitações.

Me desculpa se comentarei alguma coisa que não seja pertinente a esse nosso diálogo\monólogo nosso, de uma noite de sábado, em casa e sem opção que não seja esta.

Hoje eu queria falar de poesia, de suavidade e boas vibrações, porque acredito que isso atraia energia positiva. Os dias estão muito pesados, ultimamente, para a conjuntura do país e do mundo. Aqui a corrupção anda à solta e alhures também, além da violência e da falta de amor.

Tenho evitado falar em coisas negativas e que não sejam de incentivo para mim, uma tática que já adotei faz tempo. Mas tem momentos que a reflexão fala mais alto, diante de tanta notícia negativa desse governo provisório corrupto, resultado de um golpe muito baixo no Congresso Nacional.

Ontem foi dia de  mobilização em todo o país e, embora a…

Desde quando a mortalidade nos torna lúcidos?

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Por Olívia de Cássia

De um tempo para cá venho pensando nesse tema que não é muito comum e nem suave. Hoje vou falar de um assunto que muita gente não gosta e evita falar, mas que é o caminho de todos nós: a morte dos seres humanos. É questão bastante discutida pela filosofia no mundo.

Segundo o teólogo Leonardo Boff, "tudo ocorre dentro de um imenso processo de evolução. Nesse processo tudo vem regido pelo equilíbrio entre a vida e a morte. A morte não vem de fora. Ela se encontra instalada dentro de cada ser", explica.

Já Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu romance "Todos os homens são mortais", de l946, demonstra o absurdo de uma vida mortal como a nossa ser imortalizada. E argumenta que esta condição seria um "inferno".

"Nada deste mundo satisfaz a estrutura do desejo que habita famintamente o ser humano insaciável", acrescenta Leonardo Boff. "De pouco valem os mil estratagemas de prolongamento da vida. Chega o momento em que, mesmo…

A vida é um eterno recomeço

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Por Olívia de Cássia

O corpo dói, os impedimentos físicos e limitações chegam para lembrar que já não posso tudo. Sabe Diário, às vezes penso que estou bem pertinho do fim; em outros momentos, na minha fértil imaginação, que eu posso tudo se eu ainda quiser.

Mas eu queria mesmo era estar saudável para sair por aí, como antigamente, na juventude, na época da faculdade, aproveitando a noite de sexta-feira, recebendo um banho de cultura e voltar para casa refeita.

Nos sonhos e na imaginação a gente pode tudo.  Renato Russo já dizia em sua poesia: "Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem ou que seus planos nunca vão dar certo ou que você nunca vai ser alguém".

Acredito nessa assertiva porque passei a minha vida persistindo em meu sonho e acredito que a gente só concretiza aquilo que sonha um dia se tentar e tentar e tentar, mesmo que esse sonho esteja lá no fundo da nossa alma e avaliamos que tudo aconteceu por acaso; o que não foi o meu caso…

A gente tem que decidir ...

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Por Olívia de Cássia

Então chega aquele momento que a gente tem que decidir. O poeta já dizia que uma hora ou outra a gente tem que decidir se fica, se segue em frente ou se dá alguma chance ao que ficou lá trás.  É difícil, mas  o melhor a fazer é tomar a decisão e seguir em frente.

A gente precisa ter um pouco de dignidade e perceber quando não há mais motivos para ter esperança e supervalorizar o outro que nunca soube te dar o devido valor.  "Na dúvida, largue a incerteza no meio do caminho e siga por onde os sinais forem mais fortes".

Mas não pense, meu Diário, que eu tenha agido e pensado sempre assim: foi preciso o peso da idade e dos anos vividos;  que a vida batesse muito no meu lombo; me levasse quase ao fundo do poço, para que, aos poucos, eu tenha ressurgido das cinzas, feito a fênix, aquele passo da mitologia grega.

Apesar das limitações físicas de hoje, sem sombras de dúvida, eu posso dizer que sou uma mulher livre de amarras e impedimentos internos que me  con…

No meu tempo era assim...

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Por Olívia de Cássia

 O filósofo e professor Leandro Karnal falando sobre a utopia da melhor idade, em uma de suas palestras, observou  que quando a gente começa a usar o termo 'no meu tempo era assim', é porque já estamos velhos.

Envelhecer não é fácil e muito menos quando a saúde da gente já não está tão presente. E nos pomos a lembrar dos bons momentos vividos e que jamais voltarão. Eu envelheci faz tempo, mas por enquanto só no corpo.

Na alma ainda carrego sonhos, não tão doces e ingênuos como eram antes, mas eu me recuso a envelhecer, como dizia minha mãe americana Rosa Amada Gil. "Seria bom se tivéssemos permanentemente a juventude", diz o professor em sua palestra.

Na conversa em uma universidade, ele  cita a lenda de Peter Pan, um garoto que se recusa a crescer. Tem gente que não cresce nunca e carrega dentro de si a síndrome do garoto flautista. São pessoas inseguras, imaturas, dependentes, irresponsáveis, têm acessos de raiva e dificuldade em manter um co…